quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Reputação empresarial: dez mandamentos


(Artigo escrito a convite da ABERJE - Associação Brasileira de Comunicação Empresarial e publicado originalmente no livro comemorativo do 50o. aniversario da entidade, celebrado em 2018)



Podemos nos permitir perder dinheiro – até muito dinheiro.
Mas não podemos nos permitir perder a reputação
– nem mesmo um pouquinho.
Warren Buffett, presidente da Berkshire Hathaway, reverenciado
como o gestor de investimentos mais competente do mundo


Eu não tinha ideia das ambições políticas [de Trump], mas não
gostava de seu comportamento como homem de negócios.
Uma vez ele me convidou para ser o locatário-âncora de um de seus prédios. Ele disse: ‘Diga quanto você quer dar. Eu quero você como âncora, e você pode dizer quanto quer pagar’. Eu respondi: ‘Eu não tenho dinheiro bastante’. Não tem nada a ver com os clientes. É a minha reputação.”
George Soros, investidor milionário e apoiador de causas
progressistas e de direitos humanos, no The Washington Post


Uma reputação de mil anos pode ser prejudicada
pela conduta de apenas uma hora.
Provérbio japonês


Reputação, reputação, reputação! Oh, perdi minha reputação,
perdi a parte imortal de mim mesmo – e o que resta é bestial!
Otelo, de William Shakespeare


A Samarco passou décadas trabalhando diariamente para construir, polir e divulgar sua boa reputação, que acabou instantaneamente enlameada pelo desastre causado pela empresa em Mariana. Anos atrás, uma fabricante de berços nos Estados Unidos viu-se quase destruída quando um bebê morreu estrangulado pelo cordão da chupeta, que ficou preso num elemento decorativo de um berço de sua marca. (Imagine-se o drama de berços que matam bebês – a indignação e a repulsa sociais.) Ações imediatas, inclusive no processo de design e produção – sem falar em comunicação – não só salvaram a empresa de uma catástrofe, como resultaram em aumento de vendas.

Quando, aqui no Brasil da Lava Jato, assistimos pasmos ao desmoronamento da reputação de enormes e importantes empresas, passou a ser indispensável para as companhias construir ou reforçar os pilares da reputação empresarial – governança, compliance, transparência, diálogo com ONGs e demais stakeholders, sustentabilidade socioambientaleconômica, issues management, bom e fluente relacionamento com a mídia tradicional e pelas redes sociais.

No entanto, essas são apenas as ferramentas construtivas da reputação. O cerne da questão está, digamos, na concepção arquitetônica do projeto, na essência vital da cultura das pessoas que constituem a empresa. Ou então tudo não passará de um exercício de cumprimento de tabela, uma narrativa “da boca p’ra fora”, que cedo ou tarde sucumbirá ao teste da credibilidade.

Em um texto sobre a amizade, o senador e filósofo romano Marco Túlio Cícero (106–43 a.C.) escreveu: “Poucos são aqueles que desejam ser virtuosos em vez de parecerem sê-lo”. O original em latim cunhou a expressão “esse quam videri” (“ser, não apenas parecer”), que se tornou lema de dezenas de escolas e outras organizações, principalmente nos países de língua inglesa, e pode ter inspirado o dito sobre a mulher de César, que precisa não apenas ser honesta, mas também dar a impressão de sê-lo (“À mulher de César não basta ser honesta, é preciso parecer honesta”).

Esse raciocínio se aplica perfeitamente à empresa que deseja ter boa reputação e cujos gestores e funcionários sabem que: 1) quem faz ou desfaz a reputação empresarial não é a empresa, que afinal é apenas um CNPJ – e sim as pessoas que a compõem; e 2) a reputação não se estabelece apenas porque a organização ou suas pessoas querem – e antes pela opinião dos outros, dos grupos com os quais a empresa se relaciona e que a julgam com base em suas ações, não apenas em suas palavras bem torneadas, suas fotos bonitas, seus vídeos impressionantes.

Um Decálogo

Se pudéssemos escolher dez itens principais para a construção e  manutenção de uma boa reputação empresarial, esta lista, ainda que longe de pretender exaurir o tema, provavelmente conteria as seguintes recomendações maiores:

        1. Comece do alto

Evidentemente, no processo de construção da boa reputação de uma empresa e de suas marcas, tudo começa no topo da companhia. É indispensável, portanto, que a decisão política seja tomada, incentivada, imposta e praticada pelos membros do Conselho de Administração, pelo CEO, por todos os diretores. Não há alternativa, pois um paradigma de tal dimensão não pode ser instituído de baixo para cima.

     2. A boa prática é diária

Fazer a coisa certa todos os dias, o dia todo, é um mantra que precisa ser exercitado e lembrado à totalidade dos funcionários e stakeholders em todas as oportunidades e com frequência. Não com truques publicitários ou promocionais, tipo um “Dia de Fazer a Coisa Certa”, mas de forma a imprimir a necessidade de permanência e continuidade.
    
         3. Treinar para não errar

Mantenha um treinamento periódico mandatório de compliance para todos os funcionários, presencial e/ou por meio de vídeos curtos, que coloquem simulações de casos reais, mostrando atitudes erradas e deletérias à reputação da empresa (subornos, dar “presentinhos” a funcionários públicos, informação privilegiada, receber presentes de alto valor de fornecedores, combinação de preços entre concorrentes etc.), testando o conhecimento e as atitudes dos funcionários, apresentando as condutas corretas e explicando por que estas são certas e as outras, condenáveis.

         4. Tenha uma cartilha
 
As normas de comportamento e atitudes destinadas a assegurar à empresa um perfil de integridade devem ser reunidas em uma detalhada política escrita, a ser amplamente divulgada por todos os meios possíveis – impressos e eletrônicos – não só entre os funcionários e seus familiares, mas também para todos os stakeholders externos, a fim de comprometer publicamente a empresa e seus colaboradores e demonstrar que estão submetidos expressamente ao permanente escrutínio da sociedade.

     5. Cuidado com os pequenos deslizes

Uma garrafa de uísque importado no Natal, de presente para aquele rapaz legal, funcionário da Prefeitura que fiscaliza o sistema de conservação ambiental da companhia nas proximidades da fábrica? Mas por que não? Sempre fiz assim... Contratar a professora funcionária de uma escola pública para ser monitora de visitas à exposição que a empresa montou? Mas tudo bem... No papel é a irmã dela quem vai receber o pagamento... Cuidado com condutas como essas, enganadoramente desimportantes, que podem gerar verdadeiros desastres reputacionais para a empresa e
suas marcas.

         6. Gerencie os problemas

Issues management é uma disciplina que busca identificar, mitigar e, quando possível, eliminar problemas. Sejam eles de caráter interno (gestão, design, manufatura, recursos humanos etc.) ou externos (pressões da sociedade, de áreas governamentais, da mídia, de ONGs, e por aí afora). 

Quando ocorrem de forma localizada, podem ser resolvidos pela própria área diretamente afetada. Mas por vezes as questões abrangem mais de um setor – e exigem enfoque pluridisciplinar – ou constituem tendências sociais, comunitárias ou econômicas externas à empresa que podem requerer estudos mais complexos, monitoramento contínuo, providências de diferentes departamentos ou unidades etc. 

Estes últimos são aqueles em que o processo disciplinado de issues management mostra seu real valor, tanto na identificação de questões que surgem na sociedade e que têm potencial para afetar a vida da empresa como para o acompanhamento da evolução dessas questões e na preparação e execução de medidas defensivas.

A detecção do surgimento desses issues e a previsão de seu comportamento futuro, para propiciar seu eficaz enfrentamento, são os principais méritos dessa técnica. Novas regulações governamentais e iniciativas de legislação, situações de eventual vulnerabilidade da empresa, a intensificação e a facilidade de acesso da comunicação pela internet e por redes sociais, questões socioambientais e comunitárias – todos esses são exemplos de possíveis dificuldades para a empresa e suas marcas, com reflexos em sua reputação e seu desempenho, típicos de issues management. O mais abrangente e conhecido deles nestes vários anos seguramente são as mudanças climáticas, que afetam e afetarão cada vez mais a vida não só das pessoas, mas também das empresas.

Uma excelente ilustração para o valor de issues management na detecção de novas tendências que surgem na sociedade e podem crescer e vir a constituir vulnerabilidades para a reputação de uma empresa está na canção Une Idée (“Uma Ideia”), de Charles Aznavour:

Uma ideia
No começo não tem voz
Mas gradualmente ganha peso
Amadurece, faz seguidores,
A gente a aceita.
E por menos sentido que faça
Ela vai indo, sem se preocupar
Com os detratores
Que têm muito medo
De uma ideia

         7. Tenha um comitê de gestão de crise

Outro item fundamental neste decálogo são os comitês de gestão de crise, que devem existir não só no escritório central ou matriz da empresa, mas também em todas as suas unidades. Esses organismos, integrados com os grupos de issues management, têm a missão de enfrentar e solucionar situações emergenciais que possam prejudicar o desempenho e a reputação de uma companhia, recomendando a implementação de providências destinadas a prevenir, encarar, administrar as crises e procurar resolvê-las.

         8. Saiba quem são as partes envolvidas

Conhecer os stakeholders e suas preocupações é mais um item fundamental para evitar potenciais prejuízos à reputação da empresa. Uma ONG pode, como já aconteceu, exigir que ela revele a procedência dos produtos utilizados no restaurante da fábrica, por exemplo. A carne vem de área ilegalmente desmatada? Não possui todas as certificações exigidas pelas autoridades sanitárias e ambientais? Quando a empresa conhece o perfil, as atividades e os gestores das principais ONGs e dos fornecedores, certamente pode evitar questionamentos agressivos, ou no mínimo manter-se preparada para dar respostas imediatas e satisfatórias.

         9. Crie um canal para denúncias

Um sistema de comunicação que permita denúncias protegidas pelo anonimato, de parte de qualquer pessoa do público, é outra medida preventiva das mais importantes para blindar a reputação da empresa. Esse sistema, que em geral pode utilizar uma linha telefônica 0800, idealmente deve ser gerido não por funcionários, mas por organização externa, a fim de assegurar a confidencialidade dos autores. Pedidos de propina, casos de assédio e bullying, irregularidades em concorrências entre fornecedores, todas essas são amostras de situações em que uma denúncia pode prevenir ou reparar circunstâncias que, caso ignoradas, podem agravar-se e eventualmente explodir em detrimento da reputação da companhia.

     10. Mantenha o diálogo

Finalmente, um sistema de comunicação interna que proporcione o diálogo aberto e permanente, por e-mail, de todos os funcionários com todos os executivos, a partir do CEO – com obrigação dos executivos de responder rapidamente – é mais um recurso que pode ser inestimável para o bom perfil reputacional da empresa, além de permitir o esclarecimento de dúvidas e receber sugestões, auxiliando dessa forma a aperfeiçoar o desempenho e a reforçar a boa qualidade do clima no ambiente de trabalho.

Para ilustrar, o presidente de uma companhia que atua no Norte do Brasil recebeu denúncias de funcionários sobre a condição de clandestinidade de uma carvoaria que pretendia tornar-se fornecedora e também sobre a existência de trabalhadores em situação similar à escravidão em outra firma, e ainda uma terceira delação, sobre exploração de trabalho infantil. Essas notificações, feitas por e-mail, permitiram que a empresa rapidamente investigasse as três situações e tomasse as providências necessárias para se resguardar contra cenários que poderiam causar sério detrimento à sua reputação e à de suas marcas, sem falar em livrar-se de potenciais medidas jurídicas que viessem a vitimá-la.

Como se depreende ao percorrer esse rol de dez recomendações,  não se trata, como dizem os americanos, de rocket science. É acima de tudo produto de mero bom senso. Obviamente, porém, a adoção desses caminhos, além do empenho pessoal dos principais executivos e gestores da empresa, requer investimento. E investimento não só depois que algum desastre tenha acontecido, mas quando está tudo correndo bem, tudo normal.

Por isso, nesta época em que o dever de elevar ao máximo os dividendos trimestrais dos acionistas dificulta qualquer gasto que não seja flagrantemente essencial, a implantação de um sistema de proteção reputacional como esse demanda empresas e empresários que, acima e além de narrativa, tenham comprometimento com um propósito indispensável para companhias que visam à perenidade:

Esse quam videri.

sábado, 13 de outubro de 2018

O Gauleiter Quer Ser Führer


Aos hesitantes bem-intencionados, que ainda sequer cogitam votar em Jair Bolsonaro neste segundo turno, sugiro que se informem sobre os métodos que Hitler utilizou para se eleger ao poder na Alemanha, após uma tentativa frustrada de golpe - e todos sabem em que deu essa trágica fase da História mundial. Descrições de suas táticas abundam na internet.

Com base em ideais nacionalistas e militaristas e explorando o desencanto e o desespero popular com a miserável situação alemã após a derrota na primeira guerra mundial, explorando também o temor de avanço dos comunistas, o desconhecido ex-cabo austríaco do exército germânico entrou em 1919 para um minúsculo Partido dos Trabalhadores Alemães, que pouco depois se tornou o Partido Nazista (NSDAP).

Contando com o pressuroso apoio da elite do país – empresários, igreja etc. – e várias manobras políticas, o partideco de Hitler cresceu rapidamente no parlamento e, em 1933, ele se tornou chanceler, dissolvendo a seguir o gabinete ministerial que havia sido criado pelos conservadores para tentar controla-lo.  

No mesmo ano os demais partidos foram banidos do parlamento ou se dissolveram e um decreto-lei declarou a Alemanha um país de partido único. Além disso o parlamento transferiu seus poderes de criar legislação para o Executivo, chefiado por Hitler, o homem que viria a encabeçar o extermínio de seis milhões de judeus e criaria o slogan “Deutschland Über Alles” (Alemanha Acima de Todos), tristemente evocado em lemas atuais de Donald Trump nos Estados Unidos e Jair Bolsonaro aqui no Brasil.

O clima em que ocorreram as eleições legislativas de 1933 é descrito pela Deutsche Welle, principal agência de notícias da Alemanha. Eis o texto, que dispensa comentários:

“Eleições alemãs de 1933 transcorreram em clima de intimidação

No dia 5 março de 1933 o Reich alemão escolhia seu novo parlamento. Mas prisões arbitrárias e terror praticado pelos nazistas durante a campanha eleitoral fizeram do último pleito parcialmente democrático uma farsa.

    
Em fevereiro de 1933, toda a Alemanha se encontrava em campanha eleitoral. O povo estava convocado para definir a nova composição do Reichstag, o parlamento nacional. No entanto, apenas um único assunto dominava o debate político: o recente incêndio da sede do Reichstag e a suposta tentativa de golpe por parte dos comunistas.

O chanceler do Reich Adolf Hitler e outras lideranças nacional-socialistas exploraram esse tema em suas campanhas, atiçando propositalmente o temor de uma revolução comunista. Numa onda de terror nunca antes vista, Hitler e seus asseclas disseminavam o medo e o pânico por todo o país.

País em estado de exceção

No país reinava o estado de exceção político, desde o incêndio do Reichstag, em 27 de fevereiro de 1933. Seguranças altamente armados patrulhavam prédios públicos, a polícia procurava por suspeitos nos trens de passageiros. Nas ruas, soldados da tropa de ataque nazista SA caçavam os inimigos do regime, com a ajuda de policiais.

E achar inimigos era coisa fácil. Pois, desde que o presidente do Reich, Paul von Hindenburg, assinara o documento que ficou conhecido como "Decreto do Incêndio do Reichstag", os direitos fundamentais garantidos pela Constituição estavam suspensos e nulos.

Os comunistas eram o principal alvo dos nacional-socialistas. O patrimônio do Partido Comunista da Alemanha (KPD) fora confiscado e os jornais comunistas sumariamente proibidos. Milhares de partidários do KPD, mas também social-democratas, foram presos ou obrigados a fugir para o exterior. "Aqui não tenho que exercer justiça, mas apenas que exterminar e erradicar", afirmava Hermann Göring, então chefe da polícia prussiana.

Hitler em todos os lares

Ao mesmo tempo, os nazistas ativavam sua máquina de propaganda. O ministro Joseph Goebbels declarou o 5 de março, data das eleições, "Dia da Nação que Desperta". Enquanto se atiçava o medo de um golpe comunista, Adolf Hitler era estilizado como salvador da pátria. Com grande sucesso: "É preciso apoiá-lo agora em sua causa, com todos os meios", exortava em Hamburgo uma adepta do NSDAP, o partido nacional-socialista.

Os nazistas empregavam todos os meios modernos em sua campanha eleitoral. No rádio, no cinema ou por via aérea, Hitler era onipresente em todo o território do Reich. Em 4 de março, um dia antes da fatídica votação, ele proferiu um discurso final em Kaliningrado, Prússia Oriental.

Por sua vez, os adversários políticos, como os social-democratas, tinham sua campanha eleitoral dificultada com violência: membros da SA invadiam seus comícios e espancavam os participantes, enquanto a polícia assistia impassível. Redações dos jornais de oposição eram devastadas e destruídas. Esses atos de terror deixaram um saldo de 69 mortos.

O "popular" Hitler

No dia 5 de março de 1933, um domingo, hordas de alemães se deslocaram rumo às urnas. A participação nas eleições foi elevada, quase 89%. Hitler contava com uma vitória esmagadora, mas os alemães iriam decepcioná-lo: apenas 43,9% dos votos foram para o NSDAP, o que significava 288 dos 647 assentos do Reichstag.

Embora os nazistas tivessem obtido um crescimento de quase 11% em relação ao pleito anterior, também dessa vez o percentual atingido não bastava que governassem sozinhos. Além disso, apesar de todo o terror pré-eleições, o KPD saiu com 12,3% dos votos, e os social-democratas do SPD com admiráveis 18,3%.

No entanto, a oposição não conseguiu tirar das mãos dos nazistas o poder parlamentar. Junto com seus outros parceiros, os nazistas dispunham de maioria estável para governar. E Hitler ainda tinha a seu favor o fato de o partido ter sido eleito com votos de todas as classes e camadas sociais. O NSDAP se tornara um verdadeiro Volkspartei, um "partido do povo". Grande parte dos antigos abstinentes haviam agora apoiado a legenda nazista.

Caráter puramente simbólico

Mas o resultado das últimas eleições do Reich alemão ainda meio livres, embora antecedidas por um terror sem precedentes, só teve significado simbólico: os mandatos dos deputados comunistas foram cassados, e o SPD viria a ser proibido pouco depois. Enquanto isso, o regime nazista ampliava sua política de terror, que em breve se estenderia também aos judeus.

Em seu diário, o então professor alemão de origem judaica Victor Klemperer descreveu com resignação o ocaso da moral e da liberdade dos alemães, que se dava praticamente sem qualquer resistência: "É surpreendente como tudo pode desmoronar tão rapidamente".

Afinal de contas, no pleito do 5 de março, os alemães ainda haviam podido escolher entre diferentes facções políticas. Nas eleições seguintes, em novembro de 1933, só havia um único partido: o dos nazistas.”

Na estrutura militaresca criada mais tarde por Hitler surgiu a figura do Gauleiter, uma pequena autoridade, que podia ser um chefe político de província, de bairro, de quarteirão, ou algum deputado anônimo. Todos eles se viam, claro, como miniaturas de Führer e procuravam imitá-lo.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Uma Aula Geral, sobre Rodas Paradas

A greve dos caminhoneiros é uma verdadeira aula magna sobre vários temas, para diversas categorias de alunos. E, como não há aulas grátis, está saindo cara para todos. Empresários e executivos, políticos, jornalistas, acadêmicos, líderes de sindicatos e entidades, eleitores, motoristas – enfim, a população inteira.

A primeira lição foi a nova confirmação do poder penetrante e abrangente das redes sociais, por meio das quais os caminhoneiros articularam e mantiveram o movimento, neste enorme país inteiro, mesmo após um primeiro acordo entre governo e representantes de entidades do setor. Foi como se dissessem “Quem se lixa para essa gente fazendo acordo em Brasilia? Nós, aqui na base, é que mandamos”. Falaram entre si por aplicativo e resolveram continuar parados, do Piauí ao Sul do Brasil.

Foi mais uma demonstração da força e intensidade com que as redes sociais, na prática incontroláveis, estão invadindo a política, como começou a ser poderosamente comprovado pela “Primavera Árabe”, em 2011 e nos últimos tempos é escancarado diariamente pela tuitagem de Donald Trump e por outras manifestações semelhantes de todo tipo, pelo mundo e no Brasil. 

Como as redes propiciam a atuação direta das bases, dispensando representantes, provavelmente a população inteira pôde entender – pelo menos sentir – que essa auto-gestão está ao alcance de todos.  Ou seja: se os caminhoneiros podem agir assim e encantoar o governo, nós, povo, também podemos. Não precisamos ser representados por políticos, dirigentes de sindicatos e de associações.

O que abre caminho para, por exemplo, uma gigantesca onda de desobediência civil da população brasileira – quem sabe uma revolta contra impostos, por exemplo, como foi a Tea Party, em 1773, iniciando em Boston o processo da revolução americana que desaguou na independência dos Estados Unidos.

Empresas foram forçadas pela greve a dispensar funcionários e paralisar a produção, por falta de matéria prima, impossibilidade de escoamento de produtos e até incapacidade de alimentação de porcos e frangos. O que significa que, enquanto não construirmos uma rede de transporte utilizando ferrovias e hidrovias, as empresas seguramente terão de esquecer um pouco o “just in time” e se planejar para futuras ações similares dos caminhoneiros e de outros grupos. Porque, agora que eles viram que essa tática funciona, ficou mais fácil repetir a dose sempre que se sentirem prejudicados de alguma forma.

Cientistas políticos, jornalistas, comentaristas, editorialistas também devem estar-se indagando, imagino, se, afinal, a nossa democracia é do povo, pelo povo e para o povo, como pregou Abraham Lincoln, ou dos caminhoneiros, pelos caminhoneiros e para os caminhoneiros. Porque, no momento em que eles se recusam a encerrar o movimento enquanto o atendimento de suas reivindicações não fosse publicado no Diário Oficial – como acabou sendo, imediatamente e em edição extra – os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário foram efetivamente arrastados sobre o asfalto pelas carretas.

Finalmente, uma lição para todos nós, a sociedade nacional, é que, para longe de golpes militares ou civis – como pregam alguns primatas de internet ou de passeata – precisamos perseverar na edificação da democracia. O diabo é que democracia se constrói aos trancos e barrancos mesmo, não é um  processo tranquilinho – e toma muito tempo. Todo o tempo. E o Brasil demorou muito para começar. Estamos vivendo o mais longo período de democracia e total liberdade de pensamento e expressão de nossa História. Mas são apenas 30, dos 518 anos desde Cabral. Portanto temos pela frente a proverbial tarefa hercúlea.  Esperemos que um upgrade da política e dos políticos ocorra nesse processo e em virtude dele.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Polícia Federal: Media Training não Resolve Falta de Bom-Senso



Segundo a Folha de S.Paulo o diretor-geral da PF, Rogério Galloro, irá promover um treinamento sobre relações com a mídia (media training), destinado a aprimorar a qualidade da interface entre diretores e superintendentes do órgão e jornalistas.

A meta principal, diz a matéria, é evitar mal-entendidos e equívocos de comunicação que provoquem repercussões prejudiciais junto à opinião pública, citando como exemplos negativos uma entrevista coletiva referente à Operação Carne Fraca, no início de 2017, que teria gerado crise no mercado internacional de carne; e entrevistas do ex-diretor-geral Fernando Segovia, que acabaram por causar sua demissão.

Essa notícia da Folha parece sugerir que o treinamento projetado pretende aperfeiçoar a forma de interface entre dirigentes da PF e jornalistas, o que, porém, é o último dos problemas dessa equação.

Porque, da mesma forma que na empresa privada, o essencial, o indispensável para uma comunicação eficaz, são os valores e a postura pública dos executivos responsáveis pela entidade e por seu diálogo com a sociedade, diretamente ou via mídia. Os acessórios de Comunicação só vêm depois disso. E são acessórios.

O fundamental não é como e quando falar, mas o que falar – e aí somente media training não resolve. É preciso, antes de tudo, bom-senso, avaliação de oportunidades e do contexto local, nacional e internacional em que se dá uma comunicação, previsão de repercussões – enfim, características de gestores de alto nível, tanto em órgãos públicos como em empresas privadas.

Ingredientes que obviamente não guiaram os dois exemplos citados na matéria da Folha: o inacreditável episódio Fernando Segóvia e o desastre da Carne Fraca.

Se não se partir desse princípio fundamental, o bom-senso acima de tudo, não há media training que resolva. Porque a ausência desse alicerce é o caminho para, como muitos executivos gostam de fazer, dar de ombros sempre que há uma crise institucional e encerrar o assunto usando a desculpa fácil de dizer que é “um problema de comunicação”.  

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Empresa, Comunidade e Opinião Pública: Candidatos do mercado se comunicam consigo mesmos

Empresa, Comunidade e Opinião Pública: Candidatos do mercado se comunicam consigo mesmos: É no mínimo muito divertido assistir à evolução na avenida desses pré-candidatos a presidente da república lançados por si próprios, com...

Candidatos do mercado se comunicam consigo mesmos



É no mínimo muito divertido assistir à evolução na avenida desses pré-candidatos a presidente da república lançados por si próprios, com ideias que agradam ao mercado financeiro.

Parecem crer piamente que bandeiras como a reforma da previdência, privatizações, redução do tamanho do estado etc. irão sensibilizar o eleitorado a ponto de leva-los à Presidência (ou melhor, à “gestão” do País, como está em moda dizer).

Pesquisa e comunicação não parecem estar no cardápio de suas pré-campanhas, caso contrário conheceriam melhor esses muitos milhões de eleitores, seu grau de informação, suas agruras, necessidades e anseios.

E suas mensagens seriam formuladas e dirigidas a essas pessoas reais, não aos colegas do mercado, como acontece atualmente. Um marciano que desembarcasse no Brasil, ao ler suas entrevistas e frases na mídia, poderia pensar que banqueiros, o pessoal de agências de risco e analistas financeiros são quem elege candidatos a presidente por aqui.

Na verdade a impressão que se tem é de que, no fundo no fundo, eles gostariam mesmo é de ser deputados ou senadores – representando algum setor financeiro ou empresarial – não presidente da república.

A coisa toda é tão irreal – banqueiros, varejistas, apresentadores de TV apregoando a frio bandeiras obviamente impopulares, como se elas pudessem apaixonar as grandes massas – que se tem a sensação de um mau filme absurdo que tenta imitar os do Monty Python.

Lembrar que o único interesse do eleitor é saber O QUE ELE GANHARIA COM AS PROPOSTAS DE UM CANDIDATO, QUE VANTAGEM ELE LEVARIA COM A IMPLANTAÇÃO DESSAS IDÉIAS, não parece passar-lhes pela cabeça.

O mínimo que poderiam fazer, para levar suas candidaturas a sério, é virar essas bandeiras pelo avesso, utilizando todas as oportunidades para mostrar ao povo – aquele que realmente elege – quais as vantagens, para esse povo, das propostas que apresentam.

Só que, para isso, precisariam primeiramente conhecer o eleitor, por meio de muita pesquisa – das quais, pelo jeito, eles atualmente passam longe. 

A seguir teriam de formular mensagens, dirigidas a esse eleitor, não a seus colegas de Febraban ou de seminários de empresários, mostrando – emocionalmente, não racionalmente – que vantagens concretas terá o povo brasileiro com sua plataforma liberal.

Finalmente, teriam de ir procurar esses eleitores nos lugares onde eles estão – pela mídia adequada, não só por jornais de classe A/B – e martelar essas mensagens em todas as chances que tivessem. (E conseguir essas chances também precisaria fazer parte do esforço de campanha).

Tudo óbvio. Nada disso é original, ou, como dizem os americanos, difícil como rocket science. Mas não parece passar pelas cabeças desses nefelibatas.